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Cidades Digitais: o quebra-cabeça das freqüências
Newton Scartezini

Os projetos de Cidades Digitais sempre contemplam o acesso sem fio a uma rede de informações, com graus variados de abrangência. As razões para essa premissa vão desde a maior facilidade de implantação até a necessidade de atender a um público disperso e freqüentemente nômade dentro de uma determinada área.


A oferta de acesso sem fio pressupõe a utilização de sistemas de transmissão por meio de radiofreqüência, e a escolha das freqüências mais adequadas torna-se uma decisão de projeto das mais importantes e complexas.


Podem ser considerados dois grandes blocos de freqüências para essa utilização: as licenciadas e as de uso livre.


Freqüências de uso livre ou não-licenciadas
Existem dois blocos de freqüências de uso livre para esse tipo de aplicação: a faixa de 2,4 GHz e a faixa de 5,8 GHz.


2,4 GHz – Nesta faixa operam todos os equipamentos do tipo Wi-Fi, padronizados mundialmente. Os chamados “hotspots”, presentes em aeroportos, hotéis, lan houses e até cafeterias e livrarias, operam nessa faixa e, em decorrência da padronização, as interfaces de acesso a redes Wi-Fi são hoje muito baratas e disponíveis, com dezenas de fornecedores. Em particular, todos os computadores portáteis (notebooks) comercializados atualmente contêm uma interface de acesso Wi-Fi embutida. A farta disponibilidade e o uso de freqüências livres, que não requerem pagamento de licenças de uso, explicam a disseminação mundial do uso da faixa.

Entretanto, os equipamentos do padrão Wi-Fi têm alcance muito limitado, na ordem de 100 a 200 metros, e podem sofrer interferências de sistemas similares operando na mesma área. Isso se deve, obviamente, ao fato de a freqüência ser de uso livre, inclusive para outras aplicações. De fato a faixa de 2,4 GHz é utilizada por telefones sem fio, controles remotos de vários tipos, como portões de garagem automáticos, babás eletrônicas e até coleiras de cachorro com dispositivos de localização!

Apesar das dificuldades, não se conhece nenhum projeto de Cidade Digital que não tenha pelo menos alguns hotspots Wi-Fi, pelas facilidades apontadas.

5,8 GHz – Esta faixa é utilizada basicamente por redes de dados das tecnologias wireless Mesh (nas conexões entre hotspots, de modo a evitar o cabeamento entre unidades de acesso) e nas tecnologias Wimax e pré-Wimax, além de padrões proprietários de alguns fornecedores. Por ser de uso mais recente, essa faixa não sofre tanto com interferências quanto a outra.


No caso da tecnologia wireless Mesh, a faixa de 5,8 GHz é usada apenas na interconexão das unidades de acesso, ou seja, entre as torres que recebem e emitem sinal. O acesso do usuário à rede local é feito por meio de interface Wi-Fi, portanto, na faixa de 2,4 GHz. A intenção é aproveitar a facilidade de uso do Wi-Fi e evitar a necessidade de cabeamento entre unidades, de modo a permitir a cobertura de grandes áreas com uma rede totalmente sem fio. A solução Wi-Mesh é especialmente adequada para áreas urbanas densas, onde a passagem de cabos se torna impraticável.

No caso do Wimax e similares, cada unidade pode prover cobertura para grandes áreas, da ordem de dezenas de quilômetros, com velocidades de acesso elevadas (de 10 a 100 Mbps), o que a torna adequada para a cobertura de regiões esparsamente povoadas e para uso nômade. Pode também ser usada em áreas densamente povoadas, desde que o dimensionamento da rede leve em conta a concentração de tráfego, que vai requerer o uso de maior número de unidades. Seu ponto fraco é o custo da interface de usuário: fica em aproximadamente R$ 600 por pessoa conectada à rede. Existem projetos para disponibilizar interfaces Wimax embutidas em computadores portáteis, a exemplo do Wi-Fi, mas não se sabe qual o acréscimo de custo que esse dispositivo trará aos computadores.

Nos projetos de Cidades Digitais, que têm como um objetivo essencial a inclusão, o custo da interface Wimax pode ser um obstáculo importante. Por essa razão, muitos projetos atuais utilizam redes híbridas, onde as unidades de acesso são do padrão Wi-Fi, interligadas por redes Wimax. É importante notar que o Wimax Forum, entidade internacional que padroniza e homologa equipamentos Wimax, decidiu não homologar equipamentos que operam em freqüências de uso livre, como os de 5,8 GHz, por considerar que a operação em faixas de uso livre não garante os requisitos de confiabilidade e qualidade exigidos para sua homologação.

Frequências licenciadas ou de uso exclusivo

Os blocos disponíveis nessa modalidade são: 1,9/2,1 GHz; 2,5 GHz e 3,5 GHz.

1,9/2,1 GHz – Estas faixas são reservadas para os sistemas de celulares de terceira geração. O leilão das freqüências de terceira geração, realizado em 18 de dezembro de 2007, previu obrigações de cobertura para todos os municípios ainda não atendidos pelo serviço celular. Como os sistemas celulares de terceira geração permitem a transmissão de dados em banda larga, poderiam, em princípio, ser utilizados em projetos de Cidades Digitais.

Entretanto, um projeto desse tipo teria de ser feito em conjunto com a operadora detentora da licença para a área desejada, que tenderia a controlar o processo. Além disso, os preços das licenças são bastante elevados, e sua amortização oneraria os custos dos serviços, de modo a dificultar o atendimento de usuários de baixa renda. Como exemplo, o preço mínimo da licença para o município de Londrina foi de R$ 2,9 milhões.

3,5 GHz – Esta faixa foi definida como preferencial para Wimax pelo Wimax Forum, e os primeiros equipamentos homologados neste padrão foram em 3,5 GHz. No Brasil, foi lançada uma licitação para licenças em 3,5 GHz em 2006. A licitação foi objeto de contestação judicial e está suspensa até hoje. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) pretende retomar o processo em 2008, mas as regras para a nova licitação deverão ser definidas, já que as anteriores não foram aprovadas pelo Judiciário e pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Prevê-se, assim, um longo processo até que o leilão seja efetivado.

2,5 GHz – Esta faixa está destinada ao serviço de TV por assinatura, na tecnologia MMDS e também ao Serviço de Comunicação Multimidia (SCM), que poderia ser utilizado como suporte para um projeto de Cidade Digital. As freqüências hoje disponíveis estão licenciadas para operadores de TV por assinatura e sua utilização em redes de dados requer um acordo com essas empresas. Além disso, existem freqüências licenciadas nessa faixa para apenas 84 municípios, o que exclui a maioria dos municípios da possibilidade de utilizá-la em curto prazo.  A Anatel pretende abrir novas licitações para essa faixa, mas ainda não há definição das regras, nem prazo definido para que isso aconteça.

Conclusão

Do ponto de vista técnico, os projetos de Cidades Digitais deveriam usar preferencialmente as freqüências licenciadas, uma vez que o uso exclusivo tornaria a rede protegida de interferências e evitaria o compartilhamento que reduz a capacidade disponível para cada aplicação. Nessas condições, o serviço teria garantia de disponibilidade, qualidade e confiabilidade.

Entretanto, os altos custos de licenciamento e a grande indefinição sobre a disponibilidade de freqüências licenciadas no Brasil fazem com que os projetos de Cidades Digitais sejam quase que forçados a adotar freqüências de uso livre e a administrar os ônus decorrentes. A exceção possível, até agora, são os municípios que dispõem de operadores de MMDS com freqüências disponíveis na faixa de 2,5 GHz.

 

 

Newton C. Scartezini é consultor. Possui ampla experiência no setor de telecomunicações, tendo atuado em empresas como Telebrás, Ericsson e Nortel.



Fonte: Guia das Cidades Digitais, 18/12/2007



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